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Editorial - O jornalismo isento não existe

Este editorial fez parte da newsletter enviada no dia 16 de Março de 2018. Subscreve a newsletter para receberes estes conteúdos e o episódio da semana, aqui.

Passava os olhos pelo feed da minha conta de Facebook há um par de dias quando leio a publicação de um colega jornalista, que dizia algo como que "todo o jornalismo que produzia era isento". Estranho. Isenção, diz o dicionário da Priberam numa das suas entradas, significa “imparcialidade, desinteresse”. Nenhum jornalista é isento, imparcial, desinteressado. É, aliás, impossível que assim seja. Jornalistas escolhem que temas abordar, que pessoas ouvir, o que escrever, como escrever. Jornalistas são atores políticos. Jornalistas têm a sua visão do mundo, as suas ideologias, políticas, as suas vivências - são, por definição, interessados.

Perguntavam-me esta semana, em entrevista, se o jornalismo do É Apenas Fumaça tinha uma agenda política. Se era político, se o assumíamos como tal. O jornalismo é um ato político que tem uma agenda: a de escrutinar a democracia - questionar as decisões políticas de representantes, responsabilizando-os, e dar voz aos representados.

O que deve o público exigir dos e das jornalistas não é a isenção, a imparcialidade e a objetividade. É a transparência. Que se apresentem os e as jornalistas, que digam quem são e expliquem de onde vêm.

Esta semana lançamos uma reportagem gravada em Chelas, no Bairro do Condado, Zona J. O Carlos “MC Bambam” e o Sandro Santos guiaram-nos a pé pelo bairro até ao Bataclan 1950, o sítio onde conversam, ouvem música, escrevem letras para os seus raps. A conversa que tivemos foi profunda: sobre discriminação, racismo, sobre a violência e brutalidade policiais por que já sofreram, e também sobre o preconceito que quem não conhece a Zona J tem em relação a eles. O Sandro dizia-me: "Porque é que temos dificuldades na escola? Porque as pessoas estão baseadas em jornais.”, e daí vem a discriminação - quem é do bairro, fica de fora.

A maior parte dos jornais e jornalistas apresentam Chelas como um antro de criminalidade, violência e ilegalidades. É isso que ouvimos no telejornal, na rádio: tiroteios, perseguições de última hora, agressões. São essas as notícias que fazem manchete, mas são poucos os que procuram conhecer quem lá vive e dar voz a outra perspetiva, a outro lado.

Isso é um ato político.

Até já,
Ricardo Ribeiro.

Porque o bom jornalismo existe

EDP pagou bónus de quase 20 milhões a construtoras investigadas na Lava-Jato e na Operação Marquês
Público, Cristina Ferreira - para ler
Quando entrevistámos José Sócrates, o Governo Sombra apresentou uma montagem com todas as vezes que o ex-primeiro ministro dizia a palavra “barragens”. A rábula satirizava o tempo e a importância dada ao tema. A verdade é que lendo esta investigação jornalística se prova que há muito ainda para descobrir sobre a equação Sócrates-Barragens-EDP-Mexia-Lava-Jato-Operação Marquês. Precisaremos de horas a falar no tema, para que se esclareçam todas as dúvidas que envolvem estes investimentos.

#MeToo: Rape on the Night Shift
Reveal, Bernice Yeung e Sasha Khokha - para ouvir
Uma reportagem do Reveal em que se explora o assédio sexual a empregadas de limpeza de empresas nos Estados Unidos. Mulheres, algumas imigrantes, precárias, esforçando-se para sustentar as famílias, trabalham durante a noite ou de madrugada, invisíveis - sempre antes dos trabalhadores da empresa entrarem no escritório - e sofrem de assédio sexual constante por parte de supervisores.

Esmeralda, a “presidenta” que ajuda as mulheres do bairro a irem para a cama “de cabeça aliviada”
Do Género, Aline Flor - para ouvir
Aline Flor entrevista Esmeralda Mateus, sócia-fundadora da UMAR, empregada doméstica e presidenta da Associação de Moradores do Bairro de Aldoar, sobre feminismo.

Norman Finkelstein: The “Big Lie” About Gaza is That the Palestinians Have Been the Aggressors
Democracy Now!, Amy Goodman – para ver
Gaza, na Palestina, aparece-nos nas notícias apenas de vez em vez, quando algum político “importante” se lembra de comentar o que lá se passa. Ainda assim, o inferno que é viver num retângulo de 365 quilómetros quadrados que está bloqueado económica e comercialmente há mais de 10 anos sente-se todos os dias. Norman Finkelstein, autor do livro “Gaza: An Inquest into Its Martyrdom” fala sobre o que se tem passado por lá na última década.