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É Apenas Fumaça: Um Ano Depois, Vamos Continuar a Incomodar

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Junho de 2016.

Brexit. Trump. Síria. Refugiados. Luaty Beirão. Europeu de Futebol. Orlando. Temer. Caixa Geral de Depósitos. Cristiano Ronaldo.

Estes eram os destaques que líamos, ouvíamos e víamos. Curiosamente, foi sob a luz destes temas que cobriam os jornais, enchiam as televisões e entupiam as rádios, que a Fumaça começou. Faz esta semana um ano.

Falava-se do absurdo que seria um Brexit. Gozava-se com Donald Trump e dava-se como garantida a vitória de Hillary Clinton. Mostravam-se as bombas na Síria e os rostos dos refugiados nas fronteiras. Dizia-se que em Angola algo estava errado e pedia-se liberdade para Luaty. Celebrava-se o futebol. Chorava-se em todo o mundo pelas pessoas LGBT em Orlando. Estranhava-se Temer no Brasil. Debatia-se as finanças da Caixa Geral de Depósitos… e o penteado do Cristiano Ronaldo.

Como é que na comunicação social tradicional em Portugal, no meio de tantas histórias, se via tão pouco jornalismo? Por que é que eram sempre os mesmos homens, brancos, de meia idade, heterossexuais, de classe média alta, a opinar? Por que eram as notícias tão superficiais, quando deviam aprofundar? Onde estavam as vozes que nos explicassem o que estava a acontecer? Onde estavam as minorias? E os representantes e os representados da nossa democracia?

Há um ano procurámos isto a que hoje chamamos É Apenas Fumaça. Não encontrámos.
Então decidimos criá-lo.

Começámos este projeto como quem combina uma jantarada entre amigos. Sentados à mesa a conversar, em casa, no carro, na rua. Íamos falando no bom que seria ter uma espécie do Democracy Now, da Amy Goodman, que o Ricardo Ribeiro ouve religiosamente todos os dias. O Ricardo teve a ideia e o Tomás Pereira deu a força, numa boleia de Algés para Lisboa. Eu lá devo ter dito que sim, ao lembrar-me dos tempos em que sonhava ser jornalista.

Acordámos que enviaríamos um email a três pessoas. Se alguém respondesse seguíamos em frente. Rui Tavares, Daniel Oliveira e Pacheco Pereira. Ironicamente, três homens brancos, de classe média/alta... Mas havia perguntas que achávamos que tinham de ser feitas. E era também um bom teste começar por figuras da praça.
Respondeu o Rui. O Daniel também. O Pacheco Pereira não respondeu. Nunca respondeu. Ainda não respondeu. E nós continuamos a querer falar contigo, Pacheco Pereira.

Ligámos ao João Afonso e ao Pedro Zuzarte, dos Lotus Fever, para pedir os microfones e ajuda com o aúdio, e ao Pedro Cardoso para tratar do design. Pedimos à Diana que nos viesse dar uma mão.
Estava feito.

Gravámos o primeiro episódio em nossa casa, com o Rui Tavares, que combinou num dia e chegou no outro - literalmente. Passava já da meia noite quando ligámos os microfones pela primeira vez. Passado uma semana falámos com o António Brito Guterres e depois com o Daniel Oliveira. Foi em casa dele e mal abri a boca na minha primeira entrevista.

Não sabíamos fazer isto. Não éramos jornalistas.

Um ano depois, já com o Frederico Raposo e o Pedro Santos na equipa, mais de 70 episódios lançados, a história é outra.

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Falámos sobre racismo, brutalidade policial, o que se passa dentro das prisões, direitos LGBTI, direitos dos imigrantes, alterações climáticas, o futuro do projeto europeu, transparência e corrupção. Conversámos com ativistas, investigadores, jornalistas, professores. Demos voz a quem não tem.

Em Junho de 2017, continua a falar-se de Trump, Brexit, Síria, refugiados, Angola, e de tudo resto, mas nós vamos fazendo um esforço para explicar os porquês deste nosso mundo.

Acreditamos que o papel do jornalismo é escrutinar a Democracia. Responsabilizar os representantes, questionar as suas decisões, dar voz aos representados.

E nós assumimos a arrogância de achar que estamos a contribuir para isso.

Temos jornalistas, um ano depois. Obrigada a todas e a todos que seguem, apoiam e criticam o nosso trabalho. Vamos continuar a incomodar. Queremos continuar a incomodar.

Se acreditas no mesmo que nós, contribui aqui para que o É Apenas Fumaça continue a fazer as perguntas que não costumam ser feitas, às pessoas que não costumas ouvir noutros lados.

Maria Almeida